Corrupção e violência

Josimar e deputados do PL usavam grupo armado, extorsão e dinheiro vivo para desviar emendas

A Polícia Federal relatou ao Supremo Tribunal Federal (STF) que encontrou indícios de que um grupo liderado pelo deputado federal Josimar de Maranhãozinho (PL-MA), com a participação dos deputados Bosco Costa (PL-SE) e Pastor Gil (PL-MA), teria utilizado um grupo armado, extorsões e saques em dinheiro vivo para desviar emendas parlamentares destinadas a prefeituras do Maranhão.

Foi o que revelou o jornal O Globo nesta sexta-feira, 11. O jornal mostrou também que Josimar de Maranhãozinho mantinha contato com o agiota Pacovan, condenado no ano passado por crime contra a ordem tributária e lavagem de dinheiro no Maranhão.

O GLOBO teve acesso a trechos da investigação, mantida sob sigilo no STF. Para apurar essa suspeita, a PF cumpriu nesta sexta-feira mandados de busca e apreensão nos endereços desses três parlamentares. Os envolvidos negam a acusação.

Segundo as apurações, um agiota de nome Josival Cavalcanti da Silva, conhecido como Pacovan, emprestava recursos aos parlamentares e recebia os pagamentos por meio de saques em dinheiro vivo desviados de emendas parlamentares. “O deputado federal Josimar Maranhãozinho é quem está à frente da estrutura criminosa, capitaneando não somente a destinação dos recursos públicos federais oriundos de emendas (próprias e de outros parlamentares comparsas) para os municípios, mas também orientando a cobrança (utilizando, inclusive, de estrutura operacional armada), ao exigir dos gestores municipais a devolução de parte dessas verbas”, afirma a PF.

Os investigadores identificaram ao menos três alvos ligados ao esquema que atuariam como um braço armado na extorsão dos prefeitos. Um deles, Abraão Nunes Martins Neto, que é ex-policial militar, chegou a confirmar em depoimento à PF que atuava na cobrança de dívidas para Pacovan e que o agiota lhe solicitava que fosse “duro” nessa cobrança. O caso foi relatado à PF pelo então prefeito do município de São José de Ribamar (MA), Eudes Sampaio, que contou ter sido alvo de extorsões do grupo. A PF apreendeu documentos e identificou emendas parlamentares no valor de cerca de R$ 5 milhões que teriam sido usados nos desvios.

Chamou atenção dos investigadores, inclusive, que o deputado Bosco Costa, apesar de ser do estado de Sergipe, destinou uma emenda de R$ 4 milhões à prefeitura de São José de Ribamar, no Maranhão. O objetivo era que R$ 1 milhão, o equivalente a 25%, retornasse em dinheiro vivo aos parlamentares.

“Essa atuação causa ainda mais estranheza se levarmos em consideração que o referido parlamentar foi eleito pelo estado de Sergipe, porém encaminha emendas de alto valor para o Maranhão (base da organização criminosa), indicado que este estado pode ter se tornado um paraíso para o desvio de emendas parlamentares”, afirmou a PF.

A investigação também obteve trocas de mensagens e conversas entre os integrantes do grupo criminoso. A PF descreve um áudio enviado pelo agiota Pacovan ao deputado Maranhãozinho, em 9 de junho de 2020. Nele, Pacovan se queixa que o “homi lá do Ribamar (prefeitura onde ocorriam os desvios)” só aceitava negociar diretamente com o parlamentar.  

— Deixa eu te falar, ontem eu fui atrás do homi lá do Ribamar. Entei falar com ele, ele disse que só senta se for contigo. Entende? Ele só paga se for pra você. Ele só resolve as com você. (…) Eu não posso perder, entendeu? Que é 6 milhão. Entendeu? Vai dar um milhão e meio. Que ele tem pra me pagar. E aí e eu perder esse dinheiro? (…) Me diz aí. Qual é a minha situação? (…) É seis milhão e pouco. Vai dar quase um 1,6 milhão de devolução — diz o áudio transcrito pelos investigadores.

Num dado momento, o agiota demonstra sinais de desespero:

— Se eu perder um dinheiro desses eu endoido. Eu fico louco. Eu não passo de jeito nenhum. Com quem eu fiz negócio eu assumi. Entendeu? Eu quero que você me ajude nisso aí. Pra você tomar a frente — completou.

Em nota, Maranhãozinho afirmou que contribui e colabora com as investigações “sem medo e sem restrição”. “Por essa razão, não consigo entender a espetacularização do ocorrido, que parecer ter sido orquestrado para gerarem grande e rápida repercussão na imprensa regional e nacional. Por isso me pergunto se o objetivo é apenas denegrir minha imagem na tentativa de me tirar da disputa eleitoral”, afirmou o deputado.

Em perfil nas redes sociais, Maranhãozinho negou ter participado de qualquer ato que “ferisse a legislação”, e disse confiar no trabalho da Justiça.

O deputado Pastor Gil negou que tivesse cometido irregularidades e disse que “a improcedência dos fatos” sob investigação será comprovada.

O Globo

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